“Com o setor produtivo nos projetos de redução do custo Brasil, conseguiremos mudar o país”

25/11/2021   17h35

Jorge Lima, assessor especial do Ministério da Economia

 

O assessor especial do Ministério da Economia, Jorge Luiz Lima, procura falar a linguagem do setor produtivo brasileiro. Após 25 anos de atuação em empresas privadas e, agora, como um dos homens fortes da área econômica do Governo Bolsonaro, ele é direto nas críticas às intervenções do Estado na economia e defende que os empresários tenham uma posição mais altiva para interferir nas decisões da cúpula política do país.

Ele revelou esses pontos de vista em palestra concedida na Reunião da Diretoria da FIERN, na última quarta-feira (24), a convite do presidente Amaro Sales, e os reforçou na entrevista abaixo, concedida à gerente de comunicação da FIERN, Juliska Azevedo, após almoço com diretores da federação.

 

Entrevista – Jorge Luiz Lima

FIERN – Suas palavras sobre a atuação do setor produtivo foram bem recebidas pelos diretores desta federação. Por que as suas colocações do assessor especial do Ministério da Economia estão chamando tanto a atenção do empresariado?

Eu acho que de um ano e meio para cá nesse governo, o setor produtivo começou a entender o que é necessário entender. O erro do Brasil é que o setor produtivo é quem trabalha para o Estado, não é o Estado que trabalha para o setor produtivo. Em qualquer país desenvolvido ou em desenvolvimento o setor produtivo tem uma voz muito forte, tanto que o lobby é algo de direito. O lobby que nós não queremos é o lobby nefasto. Mas o lobby legítimo é de direito em qualquer outro país, Alemanha, França, Estados Unidos. Até mesmo em países comunistas tem um lobby do setor produtivo muito forte. Então, durante anos o setor produtivo ficou muito longe da participação efetiva de políticas econômicas. E hoje sinto que estão entendendo que é necessário participar. O Brasil só melhora se nós reduzirmos o custo Brasil, só melhora com reformas estruturantes. E há um grau importante de participação do Executivo e do Legislativo para que o setor produtivo se mova em determinada direção. O que é de direito.

 

Como os empresários podem atuar com essa visão, de fazer com que o governo trabalhe de acordo com os interesses do setor?

Primeiro, eu acredito muito na regionalidade. Você tem a federação aqui do RN com um trabalho brilhante do Amaro Sales, ele pode ver com os parlamentares regionais, deputados e senadores, uma agenda que interesse ao Estado e ao bem maior. Não podemos esquecer que não temos 27 estados, temos 27 países. Então você tem que ver o arcabouço geral primeiro, que é o chamado Custo Brasil, e depois tem que ver as políticas públicas que desenvolvem o Estado. Eu acho que os canais de comunicação vão se sempre as federações, o Sebrae, uma Associação Comercial, ou seja, você tem que movimentar um grupo que comece a ter um diálogo com o Executivo e o Legislativo de uma forma proativa para uma economia de Estado, e não uma economia de governo.

 

O Sr. já foi CEO do projeto Custo Brasil, que identifica os principais gargalos e o que é preciso fazer para combatê-los. Quais são esses gargalos?

Na realidade são 12 itens. Os principais são Segurança Jurídica, que hoje é um processo incrível – você não consegue fazer nada no Brasil porque a Lei muda amanhã, você não tem segurança jurídica para fazer nada. Esse é um grande problema. A infraestrutura do Brasil é um grande problema, até pela pouca verba que temos de investimento em um país tão grande como esse. Você tem a questão de crédito no Brasil, que também é muito grande, questão de cadeia de insumos… ou seja, você tem 12 itens. O grande problema do Custo Brasil são dois. Primeiro, ele é de R$ 1,5 trilhão por ano. Nós já conseguimos em potencial – potencial porque tem coisas que eu faço hoje que dá resultado amanhã – mas quando você pega a Lei do Saneamento, são 10 anos para se ter o ápice na economia, a Lei Do Gás é sete anos, o Marco Elétrico é cinco, então cada hora que eu atraso de votar um projeto eu estou adiando em 10 anos o Brasil chegar em um limite de 1,5 de redução ao mês. O grande problema desse R$ 1,5 trilhão é que um trilhão deste valor passa pelo Congresso. Então tínhamos 24 projetos dentro do Congresso que davam mais ou menos R$ 500 bi, votaram nove e faltam 15, e esses 15 estão me preocupando porque eu estou com medo de o começo do processo eleitoral atrapalhar votações que a gente tem até março para aprovar. Esse é o estágio em que estamos. Precisamos avançar nas reformas porque cada dia que adiarmos estamos perdendo 10 anos.

 

O senhor revelou também, aos diretores da FIERN, ser um entusiasta da reforma administrativa.

Sou. Pelos dois lados. Acho que a reforma administrativa ficou com uma imagem que é para reduzir. Sou contra essa visão, essa imagem. Não. O que precisamos ver é que o orçamento de Tarcísio (ministro da Infraestrutura) é R$ 7,5 ou R$ 8 bilhões, e nós gastamos R$ 8 bilhões com profissões que não existem mais: ascensorista, operador de telex, operador de telefax… não dá. Eu entendo que tem cargos que realmente precisam de estabilidade, mas outros que não vejo ter a menor necessidade de ter estabilidade. Porém, também, eu acho que você tem que entrar com um salário mais baixo, como é o setor produtivo, mas esticar o salário, e não nesses tetos que você tem hoje. No governo trabalhei diretamente com algumas pessoas que seriam vice-presidente ou diretor nas dez empresas em que fui presidente. Tenho certeza que em diretorias ganhariam duas ou três vezes mais do que ganham no governo. Então, a gente limita todo mundo. Sou a favor de liberar a demissão, como é no setor produtivo, de manter a estabilidade em cargos que têm risco maior como um auditor de receita. E outra coisa é entrar com o salário mais baixo e ter um teto mais alto que aí você estica a carreira da pessoa. Porque senão a desmotivação vem.

 

Como é que o setor produtivo pode atuar para ainda conseguir avanços antes que tenha início o novo período eleitoral?

Aí tem dois caminhos que eu defendo. Primeiro, conversando como ministro Paulo Guedes que é um entusiasta disso, com sua equipe, a gente pensa que temos que avançar rapidamente até março. O papel do setor produtivo é conversar com os congressistas com a visão de economia de estado. Porque muitas vezes eu vou esbarrar em uma pessoa que está em outro partido político e vai dizer “ah, não. Ele é do governo, então não vou ajudar”. É diferente de o setor produtivo dizer “isso é importante para a gente”. Por exemplo, a BR do Mar é superimportante para o RN. O Marco do Reempreendedorismo é super importante para o RN. O setor produtivo tem a capacidade de mostrar que não é um projeto de governo, é um projeto de estado. Então isso é a grande vantagem. De março para frente temos aí a oportunidade de conversa do setor produtivo com o Executivo. Tem muito trabalho infralegal que não depende do congresso que a gente precisa avançar, e nós deveríamos usar esse tempo para fazer esse movimento, senão a gente vai ficar parado. De qualquer forma, eu sempre acredito que o setor produtivo é essa ponte, porque está defendendo projetos que alavanquem seu estado e alavanquem o Brasil.

 

O Sr. tem uma longa carreira na iniciativa privada, tendo sido CEO de companhias importantes. Qual é o seu papel, ao seu ver, como membro do governo?

O meu papel tem sido trazer hoje o setor produtivo para dentro dessa realidade do governo, de economia de Estado. Estruturar projetos, colocar os projetos estruturantes, lutar pela redução do custo Brasil, buscando o setor produtivo para dentro. Eu venho de 10 grandes empresas desde os meus 34 anos, mas durante 25 anos eu só olhei para o meu umbigo. Olhava para o meu negócio, não olhava para o Brasil. Reclamava, mas não queria nem chegar perto de governo. A conclusão que cheguei era de que eu era cego, e hoje não sou mais. Por eu ter visto isso, tenho certeza que com a participação do setor produtivo dentro dos projetos de redução do custo Brasil, nós conseguiremos mudar o Brasil. Não vamos conseguir mudar o Brasil alienados, longe do governo, deixando correr a cada quatro anos. Vamos ficar sempre aqui na espera no Brasil do futuro e não no Brasil do amanhã. Não acredito mais nisso.

 

Jorge Lima, assessor especial do Ministério da Economia