Sandra Cavalcanti – uma economista com 36 anos de história no Sistema FIERN

9/12/2019   18h41

 

A última entrevista do ano de 2019 para a série “Eu faço parte dessa história” da Unidade de Comunicação, é com a economista Sandra Lúcia Barbosa Cavalcanti, Gerente da Unidade de Desenvolvimento e Prospecção Industrial, antes Unidade de Economia e Estatística da FIERN. Conhecida por ser detalhista e comprometida com o trabalho, ela tem uma história de 36 anos no Sistema, e é responsável, na Federação, por todos os dados estatísticos, previsões e cenários econômicos, e estudos prospectivos da indústria do Rio Grande do Norte. Confira a entrevista:

 

 

Poderia falar um pouco da sua formação, e como foi seu  caminho nos estudos?

 

 

A maior parte de minha formação básica foi em escola pública. Estudei o fundamental (ginásio na época) e o nível médio (científico) no Colégio Estadual Winston Churchill. Concluí o nível médio em 1976.

 

 

Alguma lembrança marcante da época em que estudava?

 

Posso falar de duas. Ingressei no nível médio no final da década de 1960, que coincidiu com o regime militar no Brasil. Coincidentemente, o diretor do colégio teve formação no exército e era um entusiasta de disciplina militar, que inspirou sua gestão pedagógica. Ele considerava, por exemplo, que moças de minissaia e rapazes cabeludos não eram bons modelos de juventude. Tudo isso em plena efervescência da revolução dos costumes de nosso século, quando as saias curtas das moças viraram padrão e os rapazes do mundo inteiro deixaram de frequentar os barbeiros. O fato é que, para fazer valer a lei da direção, logo na entrada do colégio, nos deparávamos com um fiscal que inspecionava o comprimento do uniforme das meninas e os cabelos dos rapazes: as saias das alunas não podiam ultrapassar dois dedos acima do joelho, e o cabelos dos meninos tinham que ser ao estilo da caserna. Quem tentasse transgredir esses limites era proibido de entrar para assistir aula. Naquele sistema, só a rebeldia feminina tinha vez, com simples dobraduras do cós da saia, para diminuir o seu tamanho, depois que era liberada pelo fiscal. E era torcer para não serem pegas de surpresa pela vice-diretora. Assisti a muita correria quando alguém anunciava que a diretora vinha subindo a rampa para as salas de aula. Tínhamos que ficar de pé para saudá-la. E era aí que ela dava o “flagrante”.

 

 

Na primeira metade dos anos setenta, as coisas ficaram mais leves. O diretor decidiu deixar o colégio. E dizem que ele foi chamado a atenção pela Secretaria de Educação do Governo após o pai de um aluno ter comprado a briga sobre o modelo do corte de cabelo. Nessa época, as meninas já usavam uniformes de calças compridas, quando os cabelos dos meninos foram liberados.

 

A segunda lembrança marcante foi quando implantaram um turno intermediário de aulas, entre o matutino e o vespertino, para contornar a insuficiência de vagas nas escolas públicas. Pois é, também fui testemunha do paulatino declínio de verbas ao ensino básico gratuito. Eu já cursava o nível médio e minhas aulas começavam às 15h15. Então formávamos um ajuntamento de estudantes do Churchill na calçada do Banco do Brasil, logo ao lado, sentados no chão, em pequenos grupos, à espera da abertura do portão. Era um momento legal, de descontração, eventualmente regado a uns tragos de um único cigarro, compartilhado de mão em mão.

 

 

 

Aqui na FIERN pude reencontrar alguns colegas de minha época: Edneide, que foi da Contabilidade, Ana Miranda, o presidente Amaro e sua esposa e Dodora Guedes, da Comunicação. Com esta última tinha uma relação muito próxima. Éramos da mesma “patota” Estudávamos juntas para as provas e depois para o vestibular. Dormíamos na casa uma da outra. Mas com cursos universitários diferentes, cada uma seguiu rumo diferente, até nos reencontrarmos na FIERN mais de trinta anos depois e muitas rodadas do destino.

 

 

Há quanto tempo está no Sistema FIERN?

 

Ingressei na FIERN no ano de 1983, quando ela ainda funcionava no centro da cidade, edifício Barão do Rio Branco. Ocupava oitavo andar inteiro. O IEL ocupava parte de outro andar. A mudança para a nova sede da Salgado Filho ocorreu em 1988. Saímos de um espaço bem acanhado para outro amplo, confortável e com a melhor infraestrutura. Nesses meus 36 anos de FIERN, conheci quatro presidentes: Fernando Bezerra, Abelírio Rocha, Flávio Azevedo e, agora, Amaro Sales.

 

 

Como foi a evolução de sua carreira profissional?

 

Fui contratada como economista, e meu primeiro cargo foi de assessora técnica. Como tinha jornada de 25 a 30 horas até o ano de 2004, sempre procurei aproveitar o tempo livre – via de regra pela manhã – para melhorar minha formação. Então, pude fazer um mestrado, estudar idiomas e, mais tarde, pedi uma licença sem vencimentos e fui estudar fora do Brasil por quatro anos, entre 1991 e 1995. Cursei, então, o programa acadêmico de um doutorado em Barcelona. Quando retornei ao trabalho, trabalhei na assessoria da presidência da Fiern, como chefe do Departamento Econômico, ajudando a preparar palestras do presidente e acompanhando estudos de consultoria contratados pela FIERN. Foram dessa época o plano diretor do Polo Gás-Sal, o plano estratégico Natal no Terceiro Milênio, o Plano Diretor de Mossoró e o Estudo de Oportunidades Econômicas para Mossoró. Considero essa fase a mais enriquecedora de minha carreira na FIERN. Atualmente trabalho, basicamente, com análises conjunturais do cenário econômico e industrial do Rio Grande do Norte, assessoro a gerência jurídica do Sistema FIERN com pareceres econômicos a contratos de fornecedores e auxilio qualquer outro setor ou diretoria do Sistema FIERN no que diz respeito a temas relacionados à atividade industrial do Rio Grande do Norte.

 

Fale um pouco sobre sua profissão, para que as pessoas conheçam mais sobre ser uma economista.

 

 

O economista trabalha com o estudo de fenômenos econômicos e análises nos âmbitos macro ou micro, aliando simultaneamente informações qualitativas com dados estatísticos, interpretando-os. Ele pode também trabalhar com planejamento empresarial ou do setor público e atuar no mercado financeiro. Há várias possibilidades de atuação para o profissional. Eu, particularmente não gosto da temática relativa a mercado financeiro e especulativo, que, infelizmente tem passado a dominar a profissão e a própria economia em geral. Prefiro a temática relativa a desenvolvimento econômico e social e seus desdobramentos, no âmbito micro, no setor produtivo. Eu, particularmente, tenho a impressão de que, no futuro, com os algoritmos e as novas tecnologias do conhecimento, a profissão do economista se tornará obsoleta. As previsões e cenários econômicos e estudos prospectivos serão feitos de forma muito mais eficientes por algoritmos. Bancos diversos de dados com longas séries históricas trabalhados por algoritmos de inteligência artificial estarão aptos a dar respostas mais eficientes do que pela maneira mais limitada – ainda muito intuitiva – como é feita ainda hoje.

 

 

Como tem sido para você trabalhar no Sistema FIERN atualmente?

 

A indústria nacional e a potiguar vêm de um longo período de crise. Sem a gente se dar conta, essa problemática se incorpora em nosso dia a dia, de forma muito sutil. A gente acaba padecendo um pouco cada vez que a situação fica mais delicada e vibra de satisfação quando melhora. Ultimamente a coisa ficou mais séria, pois a recessão e a crise impactaram fortemente o nível do emprego industrial e isso nos afetou diretamente. As Federações de todo o Brasil tiveram que ajustar seus quadros de pessoal à nova realidade.

 

 

No seu trabalho como um todo, tem alguma coisa que sempre te emociona?

 

Sempre fico muito satisfeita quando a utilidade do trabalho do meu setor é reconhecida. Ou seja, quando um colega de outro setor ou mesmo de fora do Sistema FIERN busca uma informação ou conjunto de informações e podemos atender a contento; ou até mesmo, quando a resposta não está em nosso alcance mas podemos ensinar o caminho.

 

 

 

Para finalizar, o que gostaria de dizer aos seus colegas de trabalho sobre o Sistema FIERN?

 

O Brasil vive uma fase de transição e de mudança de paradigma político e econômico. Ao mesmo tempo, estamos no início de uma nova transformação tecnológica. No futuro próximo, muitos problemas, do mais corriqueiro ao mais complexo, serão resolvidos no mundo digital. A massa de informações que vai sendo cotidianamente guardada em bancos de dados alimentará algoritmos de inteligência artificial, como já falei. Atualmente enxergamos apenas a pontinha do iceberg do que será essa nova realidade. Muitas profissões tenderão a desaparecer. Outras serão criadas, como temos visto nas mais recentes mudanças nas tecnologias da informação e comunicação. O que tenho a dizer aos mais jovens e que têm um futuro profissional por diante é que procurem sempre se capacitar, mesmo de forma independente, em novas áreas, à medida que estas comecem a despontar. Nesses novos tempos será imprescindível termos sempre um coelho na cartola. Esse coelho é a possibilidade de uma profissão alternativa. Porque nós seremos os gestores de nossa própria carreira e não mais as empresas.

 

 

Gostaria de acrescentar mais alguma informação sobre sua história no Sistema?

 

Falei de minha colega de colégio, Dodora, que reencontrei na FIERN algumas décadas depois. Mas tenho uma colega especial – Silvana Araújo – que me acompanha de muito perto e que trabalhou como estagiária nos anos oitenta, ainda no Barão do Rio Branco. Depois ela saiu, terminou seu curso de economia e foi trabalhar em outra empresa. No período em que estive fora da FIERN, ela foi chamada para dar continuidade ao trabalho que eu fazia. Então, desde que reassumi, continuamos trabalhando juntas. São mais de 25 anos de convivência profissional, respeito e confiança mútua. A gente se complementa muito bem.

 

 

Por Jô Lopes – jornalista – Unicom/Sistema FIERN