Roberto Serquiz, industrial, Presidente do Sistema FIERN
A crise venezuelana não deve ser compreendida apenas como uma sucessão de eventos econômicos recentes ou isolados. Ela é, sobretudo, o resultado de um processo histórico de desconstrução institucional, no qual uma nação detentora de vastos ativos naturais falhou em converter tal abundância em emprego, renda, estabilidade e dignidade para a sua população.
Na primeira metade do século XX, a Venezuela figurava entre as nações mais promissoras da América Latina. Nos anos 1950, ostentava um dos maiores PIBs per capita do mundo, atraía fluxos migratórios e apresentava indicadores sociais compatíveis com os de países desenvolvidos.
Em 1976, a nacionalização da indústria petrolífera, mediante a criação da PDVSA, foi apresentada como passo estratégico para garantir soberania e desenvolvimento. A decisão, per se, possuía lógica econômica. O problema residiu no caminho trilhado posteriormente: ao longo das décadas, a estatal foi progressivamente capturada por interesses políticos, perdendo a sua autonomia técnica e sofrendo com a drástica redução de investimentos em manutenção, refino, tecnologia e infraestrutura.
Esse processo de deterioração intensificou-se a partir do final dos anos 1990. O petróleo deixou de ser tratado como ativo estratégico de longo prazo para tornar-se fonte imediata de financiamento de um projeto de poder. Paralelamente, o Estado expandiu gastos, subsídios e programas sociais sem a correspondente sustentabilidade fiscal ou criação de valor real.
Enquanto os preços internacionais da commodity permaneceram elevados, o modelo aparentava solidez. Contudo, a ausência de poupança pública, a falta de diversificação econômica e o enfraquecimento das instituições cobraram o seu preço. O setor privado foi desestimulado, os investimentos retraíram-se e a economia tornou-se perigosamente dependente de um único produto.
A queda abrupta do preço do barril, em 2014, expôs brutalmente as fragilidades acumuladas. Sem reservas financeiras, com uma indústria petrolífera descapitalizada e uma economia improdutiva, o país entrou em colapso. A hiperinflação — que ultrapassou a marca de 1.000.000% em 2018 — dizimou salários, poupanças e o poder de compra das famílias. A riqueza petrolífera permanece no subsolo, enquanto a superfície é assolada pela pobreza, pelo desemprego e pela desesperança.
A tragédia venezuelana transcende as suas fronteiras e serve como severo alerta global: o desenvolvimento sustentável exige muito mais do que riqueza natural. Em síntese, as nações não podem depender de uma única fonte de receita; a diversificação econômica é questão de segurança nacional. Por sua vez, programas sociais são vitais, mas devem ser financiados por uma economia real e produtiva, não por bonanças temporárias. A responsabilidade fiscal constitui a base da justiça social sustentável. Ademais, o capital foge da instabilidade: o desenvolvimento exige regras claras, estáveis e segurança jurídica.
Esperamos soluções pacíficas e democráticas para a Venezuela que, lamentavelmente, foi vítima da má governança, da politização do Estado e da substituição do planejamento estratégico pelo populismo imediatista, tornando-se vulnerável a intervenções externas. A reconstrução do país não é apenas uma necessidade econômica, mas um imperativo humanitário.