
O Rio Grande do Norte desponta no cenário nacional da mineração como local estratégico para extração de elementos de terras raras. É o que mostra um estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB) publicado no último mês de dezembro. O setor de mineração potiguar vê com bons olhos o potencial do estado, mas aponta desafios para a efetivação da atividade, entre eles recursos hídricos e atração de indústrias de baterias e ímãs.
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos – chamados minérios críticos ou estratégicos, que incluem uma extensa lista, como cobre, níquel, grafite, cobalto, nióbio, lítio, entre outros – que servem de matéria-prima para diversos produtos estratégicos, como turbinas eólicas, motores de veículos elétricos, satélites, smartphones, radares e até em tecnologias de defesa. Apesar do nome, são relativamente abundantes, mas a extração é complexa e custosa.
No documento “Avaliação do Potencial dos Pegmatitos dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba”, o SGB gerou informações sobre o potencial mineral da área, inclusive para a presença de minerais estratégicos para transição energética, como o lítio e os elementos de terras raras.
O estudo analisou a presença dos minerais nas regiões de Currais Novos, Parelhas e Tenente Ananias, no RN, e de Picuí, na Paraíba, e identificou mais de 4,7 mil corpos pegmatíticos, número que pode ultrapassar 7 mil, a depender de avaliações adicionais. Os pegmatitos são rochas de granulação grosseira, com grãos com mais de 5 milímetros. Encontrados em abundância no Rio Grande do Norte, principalmente na região Seridó, são compostas por uma gama de minerais, como quartzo, feldspato e mica, além de terras raras.
De acordo com o presidente do Sindicato da Indústria da Extração de Metais Básicos e de Minerais Não Metálicos do RN (SINDMINERAIS-RN), Mário Tavares, não restam dúvidas da presença de terras raras no estado. “Sabemos da existência dessas reservas, mas o potencial ainda não está devidamente quantificado”, destaca.
Ele aponta que já há 28 processos para pesquisa mineral de terras raras registrados junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). “Existe uma perspectiva para investimentos nessa atividade para os próximos anos, pois há diversas empresas pesquisando e quantificando o potencial desses elementos”, explica o presidente do SINDMINERAIS-RN.
“Temos um setor de mineração consolidado no estado, além de mão de obra extremamente qualificada. A extração de terras raras não difere muito do que já realizamos aqui no estado, então os cursos que temos voltados para esse setor já atendem a atividade”, acrescenta. “Uma dificuldade é verticalizar esse setor, atraindo indústrias de baterias ou ímãs, por exemplo, para utilizar os elementos extraídos. A questão hídrica também é um desafio para a região onde estão essas reservas, mas há alternativas, como utilização de água servida, coisa que já é realizada na mineração de ouro, por exemplo”, completa Tavares.
O estudo do SGB reforça a preocupação do representante do setor, destacando que “ainda que o Rio Grande do Norte disponha de relativa abundância em termos de malha rodoviária e oferta de energia, apresenta limitações significativas quanto à disponibilidade hídrica”, aponta o documento.
Dados do comércio exterior sistematizados pelo Observatório da Indústria Mais RN mostram o potencial do estado para utilizar elementos de terras raras na atividade industrial. Entre 2019 e 2025, o Rio Grande do Norte importou volumes relevantes desses insumos estratégicos. Somente em 2025, foram US$ 31 milhões importados em terras raras para uso no setor de energias. O pico recente ocorreu em 2021, quando as importações atingiram US$ 43,7 milhões.
“Esse comportamento indica que o estado consome mais do que produz terras raras, reforçando a dependência de fornecedores externos e a necessidade de ampliar a base produtiva local para atender à demanda da indústria”, explica o economista do Observatório, João Lucas Dias.
Terras raras no Brasil
O cenário potiguar acompanha um subaproveitamento das terras raras no Brasil. Ainda que abrigue 23% da segunda maior reserva do mundo, 23% das terras raras, com 21 milhões de toneladas mapeadas, o país produziu apenas 20 toneladas dos minérios em 2024, é o que mostram dados do SGB.
A China concentra não apenas 40% das reservas mundiais de terras raras, mas também 70% da produção global, além de dominar patentes de tecnologias para o beneficiamento dos elementos. No segmento mais sensível — produção de ímãs permanentes, utilizados em motores elétricos — o domínio chinês supera 90%.