Artigo – “Na encruzilhada do desenvolvimento”, por Roberto Serquiz

23/02/2026   09h27

Por Roberto Serquiz, Industrial e Presidente do Sistema FIERN

 

O Brasil enfrenta um dilema que exige maturidade, responsabilidade e visão de longo prazo. Combater a fome é imperativo moral. Promover inclusão social é dever de qualquer nação civilizada. Mas transformar políticas emergenciais em estruturas permanentes, sem uma estratégia clara de emancipação econômica, pode comprometer o futuro que pretendemos construir.

 

O Bolsa Família é instrumento essencial de proteção social. No entanto, sua amplitude revela um desafio estrutural. No Rio Grande do Norte, cerca de 466 mil famílias recebem o benefício, com repasses que superam R$ 310 milhões mensais. Em um estado com pouco mais de 3 milhões de habitantes, trata-se de um contingente expressivo da população dependente de transferência direta de renda.

 

O dado, por si só, não é condenatório. Ele é revelador. A concentração significativa desses beneficiários ocorre justamente nas regiões mais dinâmicas do estado, onde se localizam polos industriais e de serviços. Paralelamente, empresários relatam dificuldades crescentes para preencher vagas formais. O que se observa é um desalinhamento entre política social e dinâmica produtiva. Quando o benefício se sobrepõe ao incentivo ao emprego formal, cria-se um ciclo de baixa produtividade e elevada informalidade.

 

Esse debate torna-se ainda mais sensível diante da proposta de redução da jornada de trabalho. Antes de discutir a diminuição da escala 6×1, é necessário enfrentar um fato incontornável: o Brasil apresenta desempenho modesto em produtividade quando comparado a outras economias. Estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) evidenciam essa fragilidade estrutural.

 

Reduzir jornada sem elevar produtividade significa aumentar custos sem ampliar a geração de riqueza. Ao mesmo tempo, o país iniciou a transição decorrente da Reforma Tributária de 2023, que demanda adaptação, investimentos e reorganização das estruturas empresariais. Soma-se a isso o desafio de que parte relevante do parque industrial brasileiro opera com defasagem tecnológica, baixa automação e competitividade
pressionada.

 

O Brasil precisa fortalecer sua base produtiva, modernizar seu parque industrial, elevar a qualificação da mão de obra e alinhar incentivos ao trabalho formal. Desenvolvimento sustentável não se constrói apenas com transferência de renda, mas com produção, inovação e competitividade. A política social deve ser ponte, não destino. A política econômica deve ser estruturante, não reativa.

 

Transferência de renda é instrumento social que deve estar alinhada a uma estratégia estrutural de desenvolvimento. Antes de encurtar a jornada, precisamos expandir a produtividade. Antes de ampliar custos, precisamos ampliar a competitividade. Em vez de perpetuar dependência, precisamos criar oportunidades reais de emancipação
pelo trabalho. A assistência é necessária, mas não pode substituir a produção.

 

Estamos diante de uma encruzilhada. Ou fortalecemos a base produtiva do país — ou consolidaremos um modelo de crescimento frágil, dependente e insustentável. E sem
dúvidas, é chegada a hora de o Brasil escolher o caminho da maturidade econômica.