
A diretora dos Centros de Educação e Tecnologias da instituição em Natal, Amora Vieira, fala sobre desafios da formação profissional e projetos voltados às demandas da indústria no RN e em outras regiões do país
Com atuação que vai da formação de costureiras e jovens aprendizes ao apoio a iniciativas voltadas ao desenvolvimento de coleções e desfiles, o SENAI-RN tem ampliado sua presença na cadeia produtiva da moda e em outras atividades industriais do estado.
Nesta entrevista, a diretora dos Centros de Educação e Tecnologias da instituição em Natal, Amora Vieira, fala sobre demandas da indústria em diferentes setores, os desafios da formação profissional e projetos que têm alcançado diferentes municípios do Rio Grande do Norte e ultrapassado as fronteiras do estado.
Entre as iniciativas que cita estão ações articuladas com ministérios, um projeto inédito vinculado à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e parcerias voltadas à qualificação profissional em áreas como moda, energia, mineração, alimentos, construção civil e energias renováveis.
Segundo a diretora, um dos focos da atuação é antecipar demandas do mercado e adaptar a formação profissional às mudanças tecnológicas e produtivas dos diferentes setores. “A indústria quer velocidade”, diz.
O SENAI é o maior complexo de educação profissional da América Latina e detentor da maior rede privada de Institutos de Tecnologia e Inovação para a indústria nessa região do mundo. No Rio Grande do Norte, engloba cinco Centros de Educação e Tecnologias: CET (Voltado ao setor da construção civil); CETCM (Voltado às indústrias de alimentos, vestuário e moda); CETIB (cursos diversos para a indústria, em Mossoró); CETAB (vestuário, construção e outros), e CTGAS-ER, principal referência do SENAI no Brasil para educação e serviços com foco nas indústrias de energias renováveis e do gás, além de centro de excelência para formação profissional em hidrogênio verde, em parceria com a Alemanha.
A atuação se dá ainda por meio do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) – principal referência do SENAI no Brasil em Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (P&D) com foco em energia eólica, solar e sustentabilidade – do Instituto SENAI de Tecnologias em Petróleo e Gás (IST-PG) e da FAETI (Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais).
O SENAI-RN tem atuado no setor de moda no Rio Grande do Norte em iniciativas que vão além da qualificação de profissionais para a indústria. Como a senhora descreveria hoje a presença e o papel da instituição nessa área?
O nosso olhar para o segmento de moda, confecção e têxtil está voltado para a formação de pessoas e para o desenvolvimento de talentos e iniciativas. Então, quais são os pilares que a gente usa como referência para somar esforços e viabilizar as ações? Obviamente, o SENAI tem a sua atuação na qualificação profissional, em entender qual é a demanda da indústria, verificar as tendências de mercado e, com base nisso, fazer conexões que possam somar esforços.
Temos instituições parceiras dentro dessa cadeia de moda, têxtil e confecção para construir uma pauta que faça sentido para as pessoas que vão receber essas ações, para as pequenas empresas que vão receber consultorias ou oportunidades de qualificação profissional voltadas as suas necessidades.
Podemos citar, nesse contexto, o que está acontecendo agora com a parceria SENAI-SEBRAE, vinculada também a projetos de emendas parlamentares, fortalecendo esses esforços e trazendo investimento financeiro para a formação de pessoas. Então, temos o SENAI Moda, em Natal, e o SENAI de Santa Cruz, que também atua na qualificação de pessoas para o segmento. Existe uma articulação importante para viabilizar a formação tanto na capital quanto no interior do estado.
Outro passo é definir estratégias de articulação para que não haja repetição de esforços nem desalinhamento em relação às estratégias, garantindo assertividade na entrega do que o setor realmente necessita, seja em cursos ou consultorias.
O SENAI do Rio Grande do Norte atua nessa formação de pessoas, desenvolve a qualificação profissional e entrega o conteúdo programático dos cursos com soluções vinculadas às unidades móveis, porque o SENAI trabalha teoria e prática. Então, olhamos o público, a demanda, a necessidade e viabilizamos essa entrega em parceria com diferentes instituições e indústrias do Rio Grande do Norte.
A senhora falou que o olhar é abrangente e inclui tanto a formação quanto o desenvolvimento de talentos e iniciativas. Poderia dar exemplos desse trabalho que tenham trazido impacto para essa cadeia produtiva?
Além da qualificação profissional e das consultorias, o SENAI também desenvolve projetos de capacitação vinculados a recursos oriundos de emendas parlamentares e atua na idealização desses projetos.
Nossa atuação se diferencia porque temos capilaridade para entregar soluções customizadas. E essas soluções não são pensadas apenas para a qualificação profissional. Elas vão além disso. Podem, por exemplo, viabilizar um desfile de moda ou o desenvolvimento de uma coleção capaz de impulsionar um empreendedor, um ex-aluno ou uma ex-aluna do SENAI que precise de orientação para além do curso.
Então, olhamos para o curso e para as possibilidades. Dentro de um pacote de formação customizada, podemos oferecer uma trilha que passa pela formação profissional, consultoria e mentoria, projetando pessoas e empresas para o mercado da moda.
Recentemente, lançamos, juntamente com o Sebrae, o Governo do Estado e com recursos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), uma ação estratégica que foi um desfile para materializar o que temos feito em parceria com essa governança da área têxtil e de moda, com apoio da Federação das Indústrias.
O SENAI está então atuando em todas as pontas dessa cadeia, desde a formação de costureiras e jovens aprendizes até o apoio ao desenvolvimento de coleções ligadas às raízes do Rio Grande do Norte?
A gente olha para a indústria. Capacitamos oficinas de costura e também temos grandes indústrias no estado que procuram o SENAI para construir soluções de formação de pessoas na área.
Temos turmas de aprendizagem vinculadas à indústria, pessoas que buscam cursos de qualificação dentro da nossa programação de ofertas e diferentes perfis que passam por essa trilha formativa. O objetivo é deixar essas pessoas prontas para o mercado, com informação técnica de qualidade, capacidade de desenvolver produtos, trabalhar com costura, pensar coleções e desenvolver criatividade.
Recentemente, lançamos também um curso de IA (Inteligência Artificial) para moda. Precisamos contribuir com a qualificação de empresas, alunos, ex-alunos e pessoas físicas para que possam dizer: “Estamos prontos para o mercado”.
Quando se fala na cadeia da moda, quais são hoje os principais desafios levados pelas empresas ao SENAI?
O principal desafio é a formação de pessoas. Primeiro, captar quem tem interesse em trabalhar no segmento e mostrar que existem oportunidades no setor.
A indústria quer velocidade. Quer manter a produção ativa e espera que o SENAI entregue formação no curto prazo. Também quer adaptações rápidas diante das mudanças tecnológicas no processo produtivo.
Além disso, existe um segmento importante de pessoas que querem empreender na moda. O SENAI monitora esse movimento para entregar soluções de formação conectadas às demandas do mercado, incluindo uso de tecidos tecnológicos, novas metodologias, desenvolvimento de coleções e aplicação de inteligência artificial em processos criativos.
A articulação da instituição nessa atividade também ultrapassa as fronteiras do estado?
Sim. Participamos de discussões nacionais sobre a indústria e de projetos vinculados ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), além do diálogo com outras instituições que atuam com moda e calçados.
Nesse movimento, uma demanda comum entre as indústrias é justamente a formação de pessoas e a velocidade para identificar necessidades do mercado e preparar profissionais de acordo com o perfil tecnológico e produtivo das empresas.
O SENAI está conectado a ações estratégicas nacionais e a outras instituições que atuam nessa governança da moda.
No campo da qualificação profissional, como está a demanda da indústria, de forma geral, por trabalhadores capacitados?
Podemos iniciar falando, por exemplo, do setor de mineração. Há movimentos importantes de indústrias no estado, na região de Currais Novos e em outros municípios, e o SENAI já foi procurado para pensar soluções de formação de pessoas para a indústria local.
Existem demandas na área de elétrica e mecânica, por exemplo. Então, olhamos para a mineração como um setor estratégico que demanda projetos em educação.
Também temos um setor de energia que demanda formação de pessoas não apenas em Natal, mas no interior do estado. O SENAI leva soluções de qualificação para onde os empreendimentos estão sendo desenvolvidos.
Há ainda um movimento importante na área de alimentos. Todos esses segmentos industriais no estado estão com demandas ativas e interesse na formação de pessoas. O SENAI tem sido esse elo entre a indústria e as soluções de qualificação profissional.
Também estamos olhando o médio prazo, para o que pode acontecer daqui a três ou cinco anos. Estamos articulando soluções para comunidades extrativistas, quilombolas e indígenas, em parceria com instituições nacionais.
Existe, por exemplo, uma iniciativa com a Aneel para pensar cursos de instalação solar fotovoltaica voltados para essas comunidades. Também estamos olhando o movimento da eólica offshore e da mobilidade elétrica, com parcerias internacionais já consolidadas e infraestrutura preparada para a formação de pessoas.
E alimentos? É uma indústria que também está se movimentando ou hoje há mais procura por empreendedorismo?
Temos os dois caminhos. Existe o setor já consolidado, com demanda por mão de obra, como na formação de padeiros para aprimoramento técnico e ampliação de portfólio de produtos.
E também há pessoas que querem empreender e procuram o SENAI para desenvolver seus próprios negócios.
Além disso, temos recebido demandas para formação de pessoas com deficiência. Já realizamos projetos na área administrativa e estamos com outro projeto para formar pessoas com deficiência para o setor de alimentos, com foco em panificação.
Todas essas soluções podem ser viabilizadas pela equipe técnica do SENAI ou em parceria com instituições como o Sebrae e outros departamentos regionais da rede SENAI.
Como funciona a busca ativa do SENAI pelas demandas da indústria?
Considerando as estratégias de atuação do SENAI e nossa missão institucional, precisamos buscar a demanda do cliente e nos apresentar como instituição que entrega soluções efetivas.
Hoje, por exemplo, temos uma estratégia voltada para o segmento da construção civil, visitando empresas e entendendo quais são as demandas para formação de jovens aprendizes.
O SENAI faz essa ponte entre a indústria e os jovens, viabilizando a formação e a conexão com o mercado de trabalho.
Essa busca ativa fica restrita à área de educação?
Não. Existem projetos focados também em outros serviços, como o Brasil Mais Produtivo, em áreas como eficiência energética para a indústria. Nossos agentes de mercado estão em campo posicionando o SENAI como uma instituição que, além de formar pessoas, também entrega soluções de consultoria para processos produtivos.
É um trabalho focado apenas na capital?
Não. Existem demandas em municípios como Lagoa Nova e Currais Novos, envolvendo energias renováveis e mineração.
O SENAI vai a campo, conduz processos seletivos, divulga projetos educacionais financiados pela indústria e realiza a formação para que essas empresas tenham bancos de talentos e possibilidades futuras de contratação.
Texto: Renata Moura
Foto: Divulgação SENAI-RN