Artigo – “A América Latina diante de uma janela histórica de oportunidade”, por Roberto Serquiz

9/02/2026   10h13

Roberto Serquiz, Presidente da FIERN

 

O Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe, realizado no Panamá, do qual participei na comitiva da CNI, evidenciou uma convergência rara entre lideranças políticas, empresariais e institucionais da região em torno de um diagnóstico comum e de uma agenda estratégica compartilhada. Integração regional, desenvolvimento econômico com inclusão social, fortalecimento institucional e cooperação frente aos desafios globais foram os fios condutores das principais intervenções.

 

Um elemento novo, porém decisivo, atravessou praticamente todos os debates: a busca dos países latino-americanos por diversificar parcerias econômicas, comerciais e tecnológicas. Em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, reconfiguração das cadeias globais de valor e crescente protecionismo, a região passa a ser vista — e a se ver — não como espectadora, mas como parte ativa da reorganização da economia mundial.

 

Não por acaso, o próprio Panamá foi citado como símbolo dessa nova etapa. Sua posição conectando os oceanos Atlântico e Pacífico, traduz a vocação natural da América Latina para atuar como ponte entre mercados, blocos econômicos e cadeias produtivas. Em um mundo fragmentado, essa centralidade logística, energética e comercial ganha valor estratégico.

 

O momento requer confiança, mobilidade, previsibilidade e alianças sólidas entre os países. O acordo Mercosul–União Europeia é um exemplo concreto de que a integração é possível e necessária. Ao mesmo tempo, ficou claro que a região não deve apostar em um único eixo de relacionamento, mas ampliar conexões com América do Norte, Europa, Ásia e Oriente Médio, fortalecendo sua autonomia estratégica.

 

As falas dos chefes de Estado no evento convergiram também para um ponto essencial: não há desenvolvimento sustentável sem inclusão social. O combate à fome, a educação e qualificação profissional foram apontados como indicadores centrais de sucesso das políticas públicas.

 

Outro eixo recorrente foi o da governança e da segurança institucional. O enfrentamento à corrupção e ao crime organizado foram tratados como condições para consolidar a confiança internacional. Sem instituições sólidas e Estado de Direito, não há desenvolvimento que se sustente.

 

O que emerge desse conjunto de posicionamentos é uma constatação inequívoca: a América Latina dispõe de ativos extraordinários — mercado consumidor relevante, abundância de recursos naturais, matriz energética limpa, localização estratégica e capital humano —, mas precisa avançar de forma coordenada.

 

Para o Brasil — e para estados como o Rio Grande do Norte — essa janela histórica não pode ser apenas observada, mas efetivamente ocupada. O país reúne condições singulares para se posicionar como parceiro estratégico: uma base industrial diversificada, capacidade produtiva instalada, liderança na transição energética, setor industrial resiliente e credibilidade diplomática.

 

O RN, por sua vez, apresenta oportunidades concretas de inserção nesse movimento, seja pela força da indústria de transformação, pela vocação energética, pela logística ou pela capacidade de estabelecer parcerias industriais, tecnológicas e comerciais com novos mercados. Converter essas vantagens em resultados exige visão de longo prazo, coordenação entre setor público e privado e decisões que superem interesses conjunturais.