
Estudantes da Escola Estadual Santos Dumont, de Parnamirim (RN), conheceram nesta quinta-feira (19), em Natal, a boia Bravo – tecnologia desenvolvida de forma inédita no Brasil pela Petrobras, em parceria com o Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) e o Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados (ISI-SE).
O equipamento permite a coleta de dados essenciais para a determinação do potencial de geração de energia eólica offshore (no mar), a nova fronteira energética no país, e também serviu de inspiração para um protótipo criado na escola, premiado em 2025.
O trabalho “Bravo 2 Escolar: Prototipagem STEAM para Monitoramento e Segurança da Amazônia Azul”, desenvolvido por alunos do 2º e do 3º anos do Ensino Médio, foi um dos vencedores da 2ª Exposição Temática Estudantil da Amazônia Azul & Economia do Mar – feira de ciências realizada dentro da programação da “III Semana da Amazônia Azul & Economia do Mar”, promovida em novembro pela Sociedade Amigos da Marinha de Natal (Soamar-Natal), com apoio do Comando do 3º Distrito Naval e da Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer do Rio Grande do Norte.
A visita do grupo foi realizada à área de produção de protótipos do ISI-ER, na capital, onde são desenvolvidas as boias Bravo e outras tecnologias. “Esse é o tipo de projeto importante para despertar vocações nos jovens para a área de ciência, tecnologia e matemática, de que o Brasil tanto precisa para desenvolver sua indústria”, afirmou o coordenador de Pesquisa & Desenvolvimento do ISI-ER, Antonio Medeiros, ao receber os estudantes. “Para que, num futuro próximo, cientistas que hoje trabalham desenvolvendo tecnologias sejam substituídos pela nova geração, é preciso estimular esse interesse nas escolas.”
Inovação
Na Escola Estadual Santos Dumont, dez estudantes participaram da criação do protótipo da Bravo.
Cartolina, sensores e programação foram usados para dar forma à ideia e simular o funcionamento da boia original, explica o professor orientador da turma, Heleno Carlos de Lima Neto – doutor em Geodinâmica e Geofísica e também professor da FAETI, Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais do SENAI-RN.

“O modelo desenvolvido pelo grupo mede velocidade das nuvens, temperatura e umidade relativa do ar. A partir desses dados, calculamos o índice de calor, popularmente conhecido como sensação térmica, e o ponto de orvalho, parâmetros que interferem nas precipitações”, detalha.
O professor explica que o projeto nasceu de um processo gradual. Em 2024, os alunos já haviam desenvolvido um radar para embarcações utilizando Arduino – plataforma que facilita o aprendizado de programação e o desenvolvimento de projetos de eletrônica e robótica. Foi também nesse período que ganharam força as discussões sobre energias renováveis.
A escola foi uma das contempladas no projeto Escolas Solares, que instalou miniusinas fotovoltaicas em unidades da rede pública do Rio Grande do Norte, como laboratórios práticos para o Ensino Médio em aulas de física, geografia, ciências e matemática.
A iniciativa foi viabilizada por emenda parlamentar do então senador Jean Paul Prates, por meio de convênio firmado entre o ISI-ER e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
“A escola recebeu infraestrutura que inclui também um notebook, que usamos para organizar a programação, e uma smart TV para exibir vídeos e montar apresentações, uma ferramenta de visualização para perceber melhor quais são as ideias. Não ficou limitada apenas ao estudo da energia solar”, afirma o professor.
Em 2025, com o tema da economia do mar em debate e a expansão da energia offshore no horizonte, a turma decidiu avançar.
Além do aprendizado técnico, o professor destaca ganhos em autonomia e organização. “Eles precisaram comparar sensores, definir o que era possível fazer, cumprir prazos e entender a viabilidade de uma escolha. São competências que vão além da física.”
O processo também envolveu a aplicação de conceitos de óptica, cinemática e termodinâmica.
“A gente teve a oportunidade de colocar, pela primeira vez, esses assuntos em prática, programar e ver funcionando. Foi uma experiência única”, diz a estudante Anna Eliza de Souza, 17, integrante do grupo.
Para ela, o projeto demonstra a importância de uma tecnologia 100% brasileira e pode influenciar seus próximos passos. “Toda essa experiência tem agregado bastante às minhas opiniões e expectativas sobre o futuro. Sempre tive uma quedinha por meteorologia – aprender sobre clima, atmosfera, nuvens e vento – e ver que dá para misturar isso com eletrônica, usar tecnologia para ter informações mais específicas e certeiras do que o nosso olho me ajuda a querer seguir nessa linha.”
Para Roger Teixeira Batista, 17, o projeto reforçou o interesse que já existia pela área de tecnologia e foi decisivo para que passasse em um concurso de programação. “Eu sempre fui fã de TI, e esse projeto foi uma alavanca.”
Também participaram do projeto os estudantes Bryan Fernandes de Lima, Daniel de Morais Silva, Guilherme da Silva Sales, Luiza de Oliveira Castro, Marina Carlos Costa, Phietro Brito Sales, Wesley da Silva Sirino e Yasmin Araujo do Vale.
O instrutor de tecnologias e supervisor do Túnel de Vento do ISI-ER, Leonardo Oliveira, apresentou à turma detalhes técnicos da Bravo e explicou a importância da tecnologia para a indústria de energia eólica.
A coordenadora pedagógica da Escola Santos Dumont, Elzaneide Morais, a professora de Sociologia, Kecia Milena, e o professor de Geografia, Luiz Antônio, também participaram da visita.
SAIBA MAIS SOBRE A BRAVO
Testada pela primeira vez em 2022, a Bravo – sigla para Boia Remota de Avaliação de Ventos Offshore – é um modelo flutuante de Lidar (Light Detection and Ranging) desenvolvido com tecnologia nacional.
A segunda etapa do projeto, que serviu de inspiração para o trabalho dos estudantes, possui maior área de convés e atualização na parte eletrônica em relação à primeira versão. Foi lançada em 2023, a 20 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, no mar de Areia Branca (RN), para campanha de testes e validação.
Conhecida como Bravo 2, a boia pesa sete toneladas, tem quatro metros de diâmetro e quatro metros de altura. Sua autonomia energética é garantida por módulos de energia solar fotovoltaica.
O equipamento registra velocidade e direção dos ventos, variáveis meteorológicas – como pressão atmosférica, temperatura do ar e umidade relativa – e variáveis oceanográficas, como ondas e correntes marítimas. Esses dados são fundamentais para determinar o potencial de uma área para a produção de energia eólica.
O investimento da Petrobras na primeira versão foi de R$ 11,3 milhões, por meio do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico do Setor de Energia Elétrica, regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). A segunda fase foi viabilizada com recursos da Cláusula de Investimentos em PD&I, regulada pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Por Renata Moura