Governo e ISI-ER lançam Atlas que aponta competitividade do RN no hidrogênio verde

10/04/2026   18h29

Atlas apresenta potenciais de produção e custo do hidrogênio verde no estado. O presidente da FIERN e do Conselho Regional do SENAI-RN, Roberto Serquiz, e a governadora Fátima Bezerra, no centro da foto, participaram do lançamento nesta sexta-feira

 

O Rio Grande do Norte é uma das regiões mais promissoras do Brasil e do mundo para o desenvolvimento da indústria de hidrogênio verde e poderá alcançar custos de produção inferiores aos registrados em países da Europa – entre os líderes globais do setor.

 

Essas e outras conclusões fazem parte do Atlas de Hidrogênio Verde do estado, lançado nesta sexta-feira (10), em Natal, na sede do governo.

 

O trabalho é fruto de um Termo de Colaboração firmado entre o governo do estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec), e a Federação das Indústrias (FIERN), com execução do SENAI-RN, por meio do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER).

 

Participaram do desenvolvimento geógrafos, geólogos, químicos, engenheiros químicos, economistas, engenheiros civis, cientistas de dados e meteorologistas que integram a equipe de pesquisadores/as, técnicos/as e bolsistas do Instituto.

 

Clique aqui para fazer o download gratuito do Atlas:
http://www.sedec.rn.gov.br/Conteudo.asp?TRAN=ITEM&TARG=368047&ACT=&PAGE=&PARM=&LBL=NOT%CDCIA

 

E aqui para acessar os dados na Plataforma de Energias do RN:
https://plataformadeenergiasrn.com.br/

 

Destaque

“O Rio Grande do Norte tem uma das maiores riquezas estratégicas do mundo contemporâneo, que é o vento. A partir disso nasceu o Atlas, trazendo o potencial e as áreas prioritárias onde a produção de hidrogênio verde pode acontecer em larga escala”, afirmou o presidente da FIERN e do Conselho Regional do SENAI-RN, Roberto Serquiz, ao destacar a liderança do estado na geração de energia eólica onshore, ao lado da Bahia.

 

Ele também ressaltou o papel do estado no futuro energético do país. “O futuro energético do Brasil passa cada vez mais pelo RN. Estamos desenhando esse futuro ao consolidar investimentos e criar condições para que eles cresçam”, disse.

 

Roberto Serquiz: “O futuro energético do Brasil passa cada vez mais pelo RN. Estamos desenhando esse futuro ao consolidar investimentos e criar condições para que eles cresçam”

 

A governadora Fátima Bezerra classificou o Atlas como “mais um passo firme e concreto em direção ao desenvolvimento”, reforçando o protagonismo do estado na transição energética.

 

O pesquisador do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis e um dos coordenadores do Atlas, Raniere Rodrigues, observou, durante a apresentação dos dados, que “a ferramenta contribui para reduzir incertezas e orientar decisões de investimentos no estado”. Ele também destacou que as informações serão continuamente atualizadas para o público. 

 

“O Rio Grande do Norte poderá alcançar custos de produção competitivos entre 2030 e 2035, corroborando com publicações de instituições como EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e IEA (International Energy Agency)”, disse ele.

 

Já a pesquisadora Mariana Torres, também coordenadora do estudo, destacou o ineditismo do trabalho. “É a primeira vez, no Brasil, que um Atlas apresenta estimativas de custo de produção de hidrogênio verde com esse nível de detalhamento”, afirmou.

 

De acordo com ela, “a principal conclusão do documento é que o hidrogênio verde no estado do Rio Grande do Norte apresenta elevado potencial técnico e forte competitividade econômica em escala global, especialmente quando associado à geração eólica onshore, que combina recurso energético de alta qualidade com custos nivelados de produção significativamente reduzidos”. 

 

“A ampla disponibilidade territorial para geração solar amplia esse potencial total de produção, reforçando o papel do estado como polo emergente dessa indústria”, acrescentou.

 

O estudo aponta a região de Mossoró como destaque entre as áreas prioritárias para a produção do combustível. “Mossoró aparece como destaque por ser o grande centro, mas estamos falando aqui de uma região inteira, de uma área do litoral norte do Rio Grande do Norte que vai desde São Miguel de Gostoso até Tibau, que tem disponibilidade de energia, potencial para ampliação de geração tanto da fonte eólica quanto solar, acesso ao mar para dessalinização de água e acesso à água dos rios, um dos insumos utilizados no processo produtivo”, explica o diretor do SENAI-RN e do ISI-ER, Rodrigo Mello. 

 

Durante o lançamento do Atlas, a governadora entregou a primeira licença do estado para instalação de uma planta de produção de hidrogênio verde e amônia verde. O projeto, da empresa Brazil Green Energy, prevê investimento de quase R$ 12 bilhões no município de Areia Branca.

 

Raniere Rodrigues, pesquisador do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis e um dos coordenadores do Atlas, durante apresentação dos dados: Ferramenta contribui para reduzir incertezas e orientar decisões de investimentos no estado”

 

Potencial

Chamado de “combustível do futuro”, o hidrogênio verde é um gás produzido a partir de eletrólise, um processo físico-químico que utiliza a energia de fontes renováveis, como eólica e solar, para quebra da molécula da água. 

 

No contexto da transição energética, surge como alternativa ao hidrogênio cinza – derivado de combustíveis fósseis – e pode ser usado tanto como insumo industrial quanto como combustível, permitindo também a aplicação de soluções para armazenamento de energias renováveis e o atendimento das demandas de produtos sustentáveis para exportação, como amônia verde e aço verde, abrindo novas possibilidades de comércio para o Brasil com o mundo. 

 

O Atlas aponta um potencial de produção no estado de 90 milhões de toneladas por ano, considerando todas as áreas mapeadas como aptas. Nos cenários mais conservadores, com uso de apenas 10% dessas áreas, a capacidade estimada chega a cerca de 10 milhões de toneladas anuais.

 

Os custos de produção variam entre 1,92 e 4,20 US$/kg (eólica) e entre 3,40 e 3,58 US$/kg (solar), abaixo dos registrados em projetos europeus e em uma trajetória que tende a se aproximar ao patamar considerado competitivo frente ao hidrogênio de origem fóssil.

 

Rodrigo Mello, diretor do SENAI-RN e do ISI-ER aponta o custo da energia como vantagem do estado de olho no hidrogênio verde: “O principal fator para transformar esse potencial em realidade é a disponibilidade de energia renovável a preços competitivos. E é isso que o estado oferece hoje”

 

“O Atlas registra, sob forma de números e dados medidos, o grande volume potencial de geração que nós temos no estado. E eu não trato das 90 milhões de toneladas de potencial teórico. Eu trato de 10% de aproveitamento desse potencial, que seriam 10 milhões de toneladas, que é a perspectiva de consumo em 2040. Então o Rio Grande do Norte mostra, com dados medidos, que isso é possível”, destaca Rodrigo Mello.

 

Segundo ele, o diferencial está no custo da energia. “O principal fator para transformar esse potencial em realidade é a disponibilidade de energia renovável a preços competitivos. Não adianta ter um grande volume se ele não for competitivo. E é isso que o estado oferece hoje”, diz.

 

“Com isso, a gente caminha para um cenário em que o Rio Grande do Norte pode entregar energia na forma de hidrogênio a preços competitivos com os praticados nas últimas décadas. Isso faz com que o hidrogênio verde deixe de ser apenas uma agenda de transição energética e passe a ser um negócio atrativo para a dona de casa, para o posto de gasolina, para a indústria, capaz de se sustentar sem depender de políticas específicas. É um contexto em que o estado se torna extremamente atrativo e estratégico para a indústria internacional voltada à produção de hidrogênio”.

 

Pouco tempo atrás, frisou o diretor, “isso era um sonho distante, uma mera perspectiva”. “Hoje nós temos um ambiente legal estabelecido, um potencial dimensionado, medido, as primeiras licenças para instalação de um processo industrial e o primeiro grande projeto de inovação para o desenvolvimento de novas tecnologias na área, para checar novos modelos de negócio do Brasil aqui no Rio Grande do Norte”, analisou ele, fazendo menção à primeira planta-piloto da Petrobras para produção de hidrogênio renovável, em desenvolvimento na Usina Termelétrica do Vale do Açu (Termoaçu), no município de Alto do Rodrigues, por meio de parceria com o ISI-ER.

 

O diretor do SENAI-RN e do ISI-ER, Rodrigo Mello, com integrantes da equipe do Instituto que participaram do desenvolvimento do Atlas

Mercado interno deve puxar hidrogênio verde no Brasil

Para o diretor do SENAI e do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis, Rodrigo Mello, o foco da indústria de hidrogênio verde no Rio Grande do Norte e no Brasil tende a se voltar para o mercado interno, antes de ganhar escala internacional.

 

“O mercado brasileiro é, num primeiro momento, mais atraente do que o de exportação. Embora o país tenha uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com cerca de 45% a 50% de fontes renováveis, ainda há entre 50% e 55% de energia não renovável sendo consumida hoje. Isso representa um espaço importante de transição para o uso do H2V”, afirma.

 

Segundo ele, setores como transporte e siderurgia já apresentam demanda potencial para o uso desse hidrogênio como fonte de energia, além das indústrias que utilizam o insumo como matéria-prima, como as de alimentos e refino de combustíveis.

 

“Se o hidrogênio de baixo carbono estiver disponível em condições competitivas, não há por que a indústria continuar consumindo o hidrogênio cinza. Existe uma vastidão de consumo a ser explorada no mercado nacional, o que permite que essa indústria cresça de forma gradual, passo a passo, sem depender inicialmente de grandes projetos voltados à exportação”, diz.

 

Mello ressalta que, embora o mercado internacional seja relevante, o potencial de consumo interno ainda é significativo. “A exportação é atraente, mas há muito a ser desenvolvido dentro do próprio mercado brasileiro.”

 

Texto: Renata Moura

Fotos: Renata Moura e Juliska Azevedo