
A palestra “Combate à violência doméstica e familiar contra a mulher e ao feminicídio”, da delegada Sânzia Guedes, da Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher das Zonas Leste, Oeste e Sul, abriu a programação
“Alguém ouviu alguma história sobre violência contra a mulher este ano?”, perguntou a delegada da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, Sânzia Guedes, em palestra para estudantes do SENAI, em Natal, nesta quinta-feira (12).
Uma série de casos que ganharam manchetes de jornais e se espalharam nas redes sociais desde janeiro foi então relembrada pelo público. “O homem que matou a mulher dele no apartamento…o estupro coletivo da adolescente…o pai acusado de matar os filhos para atingir a mãe das crianças”.
São histórias que aparecem com frequência, disse a delegada. “E por isso é preciso ter consciência, para saber como ajudar para que os casos sejam reduzidos”.
A palestra “Combate à violência doméstica e familiar contra a mulher e ao feminicídio”, ministrada por ela, abriu a programação do SENAI-RN na capital em alusão ao Dia da Mulher. O evento começou na tarde de quinta-feira e será encerrado nesta sexta (13), no Hub de Inovação e Tecnologia da instituição.
No primeiro dia, o perfil das vítimas de violência, a subnotificação de casos no Brasil, os principais tipos de crimes e mecanismos de apoio às mulheres, como a Lei Maria da Penha, foram detalhados pela delegada.
Alunos e alunas de cursos técnicos e de aprendizagem, além de integrantes da equipe de educação do SENAI, participaram.
“A violência vai muito além da violência física. Tem insulto, ameaça, isolar a mulher, tirá-la de perto dos familiares e dos amigos”, disse Sânzia Guedes. “Às vezes a violência começa numa gritaria e acaba num feminicídio”.
A delegada explicou “o ciclo da violência” em três etapas. “A primeira é a lua de mel, quando a pessoa se apresenta boa, fazendo tudo o que a outra quer. A segunda etapa seria quando o clima vai esquentando, quando começa a manipulação, a chantagem, o querer que a mulher mude hábitos e comportamentos. A terceira seria a violência”, explicou.
“O que a gente vê é que esse ciclo se repete e que, quanto mais ele se repete, mais a situação está perto de um possível feminicídio. Então o que a gente tenta fazer é romper esse ciclo desde o início”, disse a delegada. “Nós, mulheres, temos o direito de nos manter em um relacionamento e também de sair dele”.

Alunos e alunas de cursos técnicos e de aprendizagem, além de integrantes da equipe de educação do SENAI, participaram da programação em alusão ao Dia da Mulher, iniciada nesta quinta-feira (12)
Violências
Lesão por objeto atirado, ofensas verbais, agressão física, ameaças, abuso sexual e stalking – perseguição que pode ocorrer, por exemplo, quando o relacionamento termina e o homem não deixa a mulher em paz – foram citados por ela, a partir de dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, como os principais tipos de violência.
“Mulheres entre 25 e 44 anos se encontram em situação de maior vulnerabilidade”, disse ainda a delegada. Dados apresentados por ela também mostram que 71% das vítimas têm filhos e que 61% não denunciam. Questões como dependência financeira, em alguns casos, impedem as mulheres de romper o ciclo.
No Rio Grande do Norte, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 mostram que a taxa de mulheres que sofreram tentativa de feminicídio aumentou 71,3% em 2024, na comparação com 2023 – estatísticas mais recentes. O número das que sofreram lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, ameaça e perseguição (stalking) também subiu.
O documento aponta a persistência da violência contra as mulheres no Brasil como uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. “É um assunto sensível, que precisa ser tratado”, observa a diretora dos Centros de Educação e Tecnologias do SENAI na capital, Amora Vieira.
“Nós temos alunas nos nossos Centros com idade a partir de 16 anos e sabemos que a violência pode mudar os rumos da vida de uma menina que pensou em crescer, pensou em ter uma profissão e que, em alguns casos, infelizmente, vai adiar esse sonho ou vai desistir dele”.
“O SENAI”, ressalta a diretora, “tem falado muito sobre a participação das mulheres nas salas de aula e no mercado. Tem tomado iniciativas, desenvolvido projetos e pensado estratégias para poder aumentar essa participação”. “E, nesse contexto, entendemos que podemos contribuir com a entrega de conteúdo responsável também sobre esse tema, para uma consciência voltada às questões de violência contra a mulher”.
A coordenadora de educação do SENAI em Natal, Marcela Duarte, ressaltou que o Dia da Mulher não é apenas um momento para homenagens, comuns nesse período. “É um momento também de reflexão”, disse. A supervisora pedagógica Magda Cardoso complementou que a educação tem papel fundamental na tentativa de redução desses casos.

A coordenadora de educação do SENAI em Natal, Marcela Duarte, ressaltou que o Dia da Mulher é um momento para reflexões
A programação do SENAI com os estudantes, em alusão ao Dia da Mulher, continuou nesta sexta, com palestra dos agentes da Polícia Civil Flávio Galvão de Souza, Wagner Marinho Fernandes, Brennda Viana e Márcia Santos; a oficina “Defesa pessoal para mulheres”, com Ana Débora Teixeira Revorêdo – instrutora de jiu-jitsu e defesa pessoal da academia Gracie Barra, além de advogada com atuação em direitos fundamentais e proteção jurídica; e o encerramento da oficina “Fortalecendo a identidade feminina: mulheres que inspiram”. Nessa atividade, as participantes estão produzindo cartazes e materiais para exposição sobre mulheres que foram ou são referências na luta por direitos, independência e protagonismo feminino.
“A escolha dos temas se deve à relevância social”, disse o Instrutor de educação nos cursos de Gestão do SENAI e neuropsicólogo Weslley Rocha, idealizador da programação com as instrutoras Larissa Maurício, Mônica Viana e Danielle Batista.
PARA DENUNCIAR
Em caso de violência, de risco à integridade física ou à própria vida, acione:
DELEGACIAS DA MULHER NO RN
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Texto e fotos: Renata Moura