Artigo: O potencial do desenvolvimento sustentável no Brasil, por Robson Braga de Andrade

30/09/2021   11h20

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o presidente da CNI, Robson Andrade, destaca os investimentos em bioeconomia como uma das principais alternativas

 

O aumento cada vez maior do aquecimento global tem levado as nações a buscarem formas variadas para mitigar as mudanças climáticas. Uma das principais alternativas nesse sentido são os investimentos em bioeconomia, modelo de produção industrial baseado no uso sustentável dos recursos naturais. De acordo com o BNDES, o Brasil movimenta cerca de US$ 326 bilhões nessa área. É ainda muito pouco, se considerarmos que, segundo os últimos dados disponíveis, em 2015 a União Europeia já movimentava 2 trilhões de euros, com a geração de 18 milhões de empregos.

 

Esse modelo de produção se vale da ciência e da tecnologia para desenvolver produtos inovadores, como alimentos, remédios, cosméticos, biocombustíveis e tantos outros, a partir das propriedades de plantas, animais, microorganismos e demais recursos biológicos. Um dos países com maior biodiversidade do planeta — sobretudo por abranger a maior parte do bioma amazônico, ter grande quantidade de terras férteis, água abundante e alta incidência solar —, o Brasil é considerado por especialistas como o país com o maior potencial para liderar o mercado da bioeconomia no mundo.

 

A aprovação, pelo Congresso Nacional, do Marco Regulatório da Biodiversidade, que definiu regras para o acesso e o uso do patrimônio genético, foi um passo muito importante nessa direção. É fundamental que, agora, seja construída uma política nacional, com objetivos claros, com instrumentos adequados ao alcance das metas e com regras estáveis, que criem um ambiente seguro para investidores interessados em aportar recursos nessa área.

 

 

Como o conhecimento é a base da bioeconomia, uma política nacional para a área deve ter como prioridade a expansão da rede de inovação e a integração de diversas atividades para a produção de tecnologias e de bens de alto valor agregado. Isso requer investimentos robustos e permanentes em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e qualificação de mão de obra.

 

É essencial, também, a criação de linhas de financiamento, com garantias, taxas de juros e prazos compatíveis com a inovação, assim como o incentivo ao capital de risco para empreendimentos que fazem uso sustentável dos recursos biológicos, a valorização dos instrumentos de proteção à propriedade intelectual e a aceleração dos processos de concessão de patentes.

 

 


Fenômenos extremos como a onda de frio e temporais intensos no Brasil, o calor recorde no hemisfério norte e as enchentes na Europa são sintomas das mudanças climáticas que atingem todo o mundo, incluindo o nosso país. Os prejuízos econômicos e sociais deixados pelos desastres ambientais exigem ações efetivas de prevenção e de adaptação a esses eventos. É cada vez mais urgente que nações e empresas adotem estratégias ambiciosas de redução das emissões de gases de efeito estufa.


 

 

Essas medidas são fundamentais para o cumprimento do Acordo de Paris e para a construção de um mundo mais sustentável — temas que serão discutidos na COP26, a conferência das Nações Unidas sobre o clima, marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) vem acompanhando as negociações para a COP26, pois as ações do setor produtivo são decisivas para o êxito do combate ao aquecimento global.

 

 

No Brasil, há inúmeras iniciativas empresariais nessa direção. Entre elas, está o Instituto Amazônia+21, uma iniciativa da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO) e da CNI. O instituto desenvolverá projetos de escala que combinem a conservação da floresta com o desenvolvimento econômico e a geração de emprego e renda naquela região.

 

A indústria também vem fazendo investimentos expressivos na descarbonização. As emissões de gases de efeito estufa dos fabricantes de cimento instalados no país são 11% inferiores à média mundial. O setor de papel e celulose, que destina 9 milhões de hectares ao cultivo de árvores para fins industriais, preserva outros 5,9 milhões de hectares de florestas nativas. De 2006 a 2016, as indústrias químicas reduziram em 44% as emissões de gases de efeito estufa de seus processos industriais.

 

Entretanto, ainda falta ao Brasil um projeto nacional que consolide a economia de baixo carbono. A expressiva área coberta por florestas, a rica biodiversidade e a maior reserva de água doce do mundo são características naturais que favorecem o Brasil na corrida pela economia verde. O país também se destaca pela matriz energética limpa. As fontes renováveis têm uma participação de 83% na geração brasileira de energia elétrica, muito acima da média de 27% registrada nos países ricos.

 

Para aproveitar melhor essas vantagens, o país deve definir, com urgência, uma estratégia nacional sólida para o enfrentamento dos desafios climáticos. A aposta na bioeconomia pode ser uma estratégia muito eficaz para ajudar o país a alcançar um ritmo de crescimento consistente, proteger o meio ambiente, se destacar no combate às mudanças climáticas e ser líder mundial em desenvolvimento sustentável.

 

*Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

 

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em no dia 29/09.