Indústria moveleira potiguar investe R$ 4 milhões em maquinário em três anos

4/12/2023   18h29

 

O investimento em maquinário para o fortalecimento da indústria moveleira tem sido um dos principais objetivos do Sindicato da Indústria de Serrarias, Carpintarias e Marcenarias do Estado do Rio Grande do Norte (SINDMÓVEIS-RN). Nos últimos três anos, cerca de R$ 4 milhões foram injetados no setor por empresas associadas ao sindicato, sendo R$ 700 mil deles só em outubro deste ano. Isso significa, de acordo com o presidente do SINDMÓVEIS, Ney Robson Alves, a prospecção de novas tecnologias que devem culminar na subida de posição do Rio Grande do Norte frente a outras unidades federativas, além de garantir longevidade ao setor em terras potiguares.

 

Neste período, os investimentos foram feitos em máquinas de alta qualidade que atribuem maior produtividade e agilidade na produção. A Router CNC, por exemplo, é uma fresadora utilizada na confecção de peças de madeira que entrega grande variedade de itens para fabricação utilizada para recortar curvas, linhas e fresas com uma maior precisão. Aproximadamente 10 empresas potiguares fazem uso dela atualmente.

 

De acordo com o sócio-proprietário da Movew, Wellton Silva, a aquisição do maquinário tem permitido a prospecção de um maior número de encomendas e, mais do que isto, a garantia de entrega, o que permite maior confiabilidade nos produtos e nas empresas. Antes, ele precisava manter funcionários ocupados com os cortes de placas de madeira. Hoje, a máquina cuida desta etapa apenas com uma pré-programação no computador, operado por um funcionário, enquanto outra parte da equipe pode se especializar nos demais processos, como montagem e acabamento, aumentando a produção em até cinco vezes.

 

“Além de produzir muito mais e muito mais rápido, ela aumenta muito a qualidade do produto que a gente entrega com uma precisão bem maior. Enquanto antes a gente cortava dependendo do que o olho humano era capaz de medir, agora estamos falando da ordem de décimos de milímetros. Então, assim, é a precisão da máquina”, comenta.

 

Wellton Silva fala sobre aumento de produção

 

Essa aquisição foi feita depois de pesquisa de mercado, detalha Wellton. De acordo com ele, era necessário saber qual a tendência nacional em termos de tecnologia para proporcionar o melhor aos seus clientes, além de posicionar melhor a sua empresa no mercado. “Desde que decidimos abrir a Movew, decidimos que precisávamos pesquisar, entrar mais no mercado. Fizemos várias viagens para Paraíba, Ceará, São Paulo. O que o Brasil tem feito que a gente ainda não alcançou no Estado?”, detalha.

 

Outra empresa que tem vivido essa transformação de perto, depois da compra de uma coladeira, é a Marcenaria Nossa Senhora da Guia, fundada há cerca de 20 anos em Natal por Francisco Joailson. A máquina adquirida por ele trouxe maior agilidade na colagem de fitas de acabamento em peças de madeira. “A gente conseguiu crescer este ano com essa máquina, em média, 15% e com isso precisamos de mais trabalhadores, porque a máquina produz, mas temos que montar na casa do cliente”, afirma.

 

Francisco Joeilson diz que a coladeira deu mais agilidade a processos

 

De acordo com o líder do SINDMÓVEIS, Ney Robson, são inovações como essas que devem garantir uma maior participação do Rio Grande do Norte, que hoje representa apenas 10% do mercado nacional, com maior atuação de cidades como Natal, Mossoró e Assú. A indústria moveleira do Brasil é representada, principalmente, por estados do Sul e Sudeste, onde se concentra maior produção.

 

No entanto, o presidente alerta que, embora haja uma maior produção em estados do Sul, é necessário se atentar para o mercado local para que ele seja fortalecido. A estimativa feita é que empresas potiguares suprem apenas 15% da demanda do RN, enquanto 85% fica com empresas sulistas.

 

“Na hora em que a sociedade encomenda ou compra um produto que vem do Sul, está fortalecendo a cidade do Sul e não está fortalecendo a nossa cidade, a infraestrutura da nossa cidade, a segurança, educação e a saúde. Então é muito importante a sociedade contratar um mobiliário dentro da nossa cidade, Natal, dentro do nosso estado, RN. Com isso, você estará fortalecendo emprego e renda aqui”, disse Ney Robson.

 

O fortalecimento do setor perpassa ainda a união dos próprios empresários através do Sindicato, comenta Wellington Silva, sócio-proprietário da Movew. “O presidente Ney sempre fala com a gente sobre como é importante não só eu comprar as melhores máquinas, crescer sozinho, e sim fortalecer o segmento para que as pessoas no RN entendam que aqui temos profissionais excelentes e quanto mais juntos ficamos, mais forte acontecem as coisas”, diz.

 

 

Wellington Silva enxerga como positiva a união de empresários do ramo

 

Fortalecimento sindical para crescer

 

O fortalecimento sindical é um passo já pensado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN) neste início de gestão. A criação da Coordenação de Relações Institucionais e Mercado, há um mês, é um passo dado nesta direção e deve abrigar o Projeto de Meritocracia Sindical, que garante suporte aos sindicatos no desenvolvimento de suas ações individuais.

 

“A meritocracia premia aqueles que geram desenvolvimento. Então, para um sindicato que precisa primeiro se reestruturar, neste caso, nós vamos dar todo o suporte de estrutura. O nosso desenvolvimento industrial passa pelo fortalecimento sindical e estes sindicatos terão todo o suporte. Apoio inclusive econômico para fazer esse desenvolvimento”, detalha a coordenadora executiva de Relações Institucionais e Mercado, Ana Adalgisa Dias. “O desenvolvimento precisa envolver também as casas que compõem o Sistema FIERN – SESI, SENAI, IEL e a própria federação”, complementa.

 

 

Além disso, o suporte é de grande importância porque as empresas de móveis planejados que investem em maquinário e buscam compor o cenário industrial do RN são de pequeno porte, reflete a coordenadora. Desta maneira, observa Dias, será possível conquistar uma parcela maior do mercado moveleiro dentro Estado.

 

“A gente tem que fortalecer a pequena empresa com capacitação via SENAI, com introdução de consultorias através do IEL, dando uma um treinamento para família do próprio industriário, dos trabalhadores. A SESI Clínica na parte de saúde e segurança do trabalhador. Então, devemos unir os serviços que a Federação já detém com outros projetos de financiamento, que a gente possa ofertar e, consequentemente, desenvolvendo a indústria local”, conclui.

 

Ney Robson pontua que o SINDMÓVEIS tem investido a longo prazo na captação de mais associados. Atualmente, o sindicato conta com um total de 35 empresas filiadas. Este número, no entanto, deve subir nos próximos anos. “Vamos ampliar o quadro agora, na campanha de busca de novos filiados. Queremos atingir em torno de mais 50% de filiados no número que temos hoje”, afirma.

 

Qualificação rumo à indústria 4.0

Os investimentos no parque de máquinas causam transformações não apenas para os empresários, mas também muda a vida dos trabalhadores. Isto porque, o setor de movelaria tem ficado cada vez mais automatizado, entrando no nicho da Indústria 4.0, que engloba o uso de sistemas de tecnologia avançadas, como inteligência artificial, robótica, internet das coisas e computação em nuvem, mudando as formas de produção no Brasil.

 

No caso da indústria moveleira, os móveis passam a ser feitos na tela do computador, através da modelagem. “É um ramo que continua sendo sob medida, porém a criação do móvel é digital e a sua criação obedece fielmente ao que está na tela do computador”, detalha o investidor da Wood Express, Gustavo Vieira.

 

 

Para que esta transformação ocorra de maneira efetiva, a qualificação dos trabalhadores é fundamental. Operadores de Sistemas, artistas 3D – que devem atuar na operação de softwares de modelagem – e assistentes operacionais, por exemplo, serão cada vez mais requeridos na produção de móveis planejados.

 

A Wood, que existe há aproximadamente quatro anos, está passando pelo processo de aperfeiçoamento do software de modelagem e Vieira tem procurado profissionais mais qualificados para a área, assim como a Filiatto, empresa de criações em movelaria.

 

“Tivemos que fazer um investimento nos últimos 12 meses e a qualificação de mão de obra não acompanhou esse processo. Nós temos que recorrer muitas vezes a um funcionário que já pertence ao quadro para poder qualificar, mas nem todos têm esse perfil’, comenta o diretor comercial da Filiatto, Thyago Alves.

 

Pensando no aumento dessa procura, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), em parceria com o SINDMÓVEIS, formou 17 novos profissionais no curso de Assistente Operacional para a Indústria Moveleira do RN, com o objetivo de solucionar e ampliar a oferta de qualificação profissional e oportunizar vagas no mercado de trabalho da movelaria. A solenidade ocorreu em 10 de outubro deste ano, no Hub de Inovação Tecnológica, em Natal. A perspectiva é que novas capacitações sejam abertas e que mais profissionais ocupem novas posições.

 

O curso foi criado a partir de uma demanda levada pelo SINDMOVEIS ao SENAI, que customizou a qualificação voltada às necessidades apontadas.

 

Texto e fotos: Líria Paz