
O SENAI-RN oferece vagas gratuitas às empresas para a qualificação profissional de aprendizes em diferentes áreas | Foto: Weslley Rocha
“Procura-se candidatos que estejam cursando ou tenham concluído o Ensino Médio, para auxiliar os departamentos operacionais de uma grande rede varejista. Não precisa ter experiência prévia”, diz um anúncio em uma página de empregos no Rio Grande do Norte.
Uma indústria na Região Metropolitana da capital, Natal, também está em busca de pessoas com esse perfil – “para mergulhar nos processos administrativos da empresa e apoiar a equipe nas demandas diárias”.
Oportunidades como essas, que se multiplicam no estado, são voltadas a jovens aprendizes – pessoas com idades entre 14 e 24 anos e pessoas com deficiência, sem limite de idade – que conciliam trabalho com carteira assinada, em empresas de médio e grande porte, com cursos de formação profissional vinculados às atividades que realizam.
No Rio Grande do Norte, 8.848 pessoas estão registradas nessa condição, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O número, acumulado até fevereiro deste ano – o mais recente disponível – corresponde a uma expansão de 6,74% em relação ao mesmo período de 2025 e de 64,6% na comparação com 2020, início da série histórica. O crescimento no estado é contínuo desde 2022, após queda em 2021, período de recessão com a pandemia.
Primeiro emprego
“Do ponto de vista econômico, a aprendizagem é uma oportunidade de primeiro emprego formal. Do ponto de vista social, ela muda vidas”, diz Rodrigo Mello, diretor regional do SENAI-RN. “Ela combina experiência, renda e qualificação profissional. O jovem aprende na empresa e no ambiente educacional ao mesmo tempo. Ele sai do programa certificado para uma ocupação e muitas vezes é selecionado, ao final, para permanecer na empresa”, acrescenta.
Pessoas com ou sem deficiência que estejam cursando, no mínimo, o Ensino Fundamental, podem concorrer a vagas de jovens aprendizes nas empresas. Exigências relacionadas à escolaridade variam de acordo com a função exercida e com os requisitos do curso relacionado.
A Aprendizagem é, segundo o governo federal, uma política pública de inclusão desse grupo da população no mercado de trabalho. Por lei, empresas com pelo menos sete empregados em funções que demandem formação profissional são obrigadas a contratar aprendizes, em números que variam de acordo com cotas mínimas e máximas por estabelecimento.
O SENAI-RN oferece vagas gratuitas às empresas para a qualificação profissional demandada pelo programa. Apenas entre os anos 2024 e 2025, em Natal, foram cerca de 1.067 matrículas em cursos de aprendizagem e a perspectiva para 2026 é de expansão, de acordo com a demanda das empresas.

No Rio Grande do Norte, 8.848 pessoas estão registradas como jovens aprendizes: Formação une teoria e prática | Foto: Divulgação SENAI Mossoró
O Centro de Educação e Tecnologias Ítalo Bologna (SENAI/CETIB), em Mossoró, e o Centro de Educação e Tecnologias Aluízio Bezerra, em Santa Cruz, também oferecem possibilidades de formação por meio do programa.
“Desde a origem de suas atividades, o SENAI trabalha com a aprendizagem. O programa é financiado a partir da contribuição das empresas industriais que fazem a sua arrecadação para o Sistema S, do qual o SENAI faz parte. Isso quer dizer que não há nenhuma nova despesa para a indústria contratar o SENAI para essa formação. A contribuição natural que ela faz mensalmente para o Sistema já supre essa necessidade e a empresa pode aproveitar melhor isso”, observa o diretor.
O Programa de Aprendizagem, acrescenta ele, “pode ser bem maior que o que as empresas usam hoje”. “Podemos ofertar quantas turmas forem necessárias para o ambiente industrial. Todos os cursos de qualificação e os cursos técnicos que fazemos nós podemos oferecer como aprendizagem. E o que precisa para isso? Obrigatoriamente que a empresa demande. E o que trazemos como diferencial: toda a infraestrutura que existe no SENAI de laboratórios de última geração, com muita tecnologia embarcada, com instrutores qualificados, uma experiência de 80 anos e uma ligação muito íntima com o ambiente de empresas industriais a partir de seus sindicatos e da sua Federação”, complementa.
Empresas de médio e grande porte têm obrigação legal de incorporar aprendizes na equipe em funções que exijam formação profissional. Do total de trabalhadores contratados, entre 5% e 15% devem ter esse perfil, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. No caso das micro e pequenas empresas, a adesão ao modelo pode ocorrer de forma voluntária.
“Do lado da empresa, o programa é oportunidade de levar aqueles profissionais para dentro, trazendo uma formação já com a cultura da empresa, desenvolvendo competências nas máquinas que ele vai operar na sua ocupação, no ambiente de trabalho onde ele possivelmente continuará trabalhando no futuro. Isso possibilita a formação de um banco de profissionais que estão ali já contratados como aprendizes, que podem ser incorporados depois no quadro. Então é um processo de aprendizado, de convivência empresa-aluno, que forma profissionais e que a empresa pode adequar a suas necessidades, a suas perspectivas de crescimento”, observa Mello.

Rodrigo Mello, diretor do SENAI-RN: “Do ponto de vista econômico, a aprendizagem é uma oportunidade de primeiro emprego formal. Do ponto de vista social, ela muda vidas” | Foto: Renata Moura
Onde estão os aprendizes
Os jovens aprendizes que atuam no Rio Grande do Norte se concentram, principalmente, no setor de serviços (40,50%), seguido do comércio (28,08%), da indústria (20,43%), da construção civil (6,27%) e da agropecuária (4,70%), segundo o Painel de informações da aprendizagem, do Ministério do Trabalho e Emprego.
Entre as funções que desempenham no estado predominam as de assistente administrativo, auxiliar de escritório e repositor de mercadorias, nesta ordem. No ranking das principais, também figuram, por exemplo, alimentador de linha de produção e costureiro.
A expectativa, diz o diretor do SENAI, é que esses postos sejam diversificados e incluam, cada vez mais, também, ocupações tecnológicas. A lista de formações anunciada como possibilidades para 2026 contempla, como novidades, o Técnico em Eletromecânica e formações básicas de Eletricista de Manutenção, Assistente de Logística e Assistente de Gerenciamento de Obras.
Em Natal, onde mais de 400 aprendizes estão ativos nas salas de aula da instituição, turmas de cursos já tradicionais, como o de Assistente Administrativo, e formações ligadas à construção civil, como Gerenciamento de Obras, estão com vagas abertas para as empresas.
No segundo semestre, diversas outras possibilidades estão disponíveis, com reserva de vagas possível para as companhias. A lista inclui Assistente Administrativo, Costureiro Industrial do Vestuário, Operador Polivalente Têxtil, Técnico em Eletromecânica, Eletricista de Manutenção, Assistente de Logística, Assistente de Gerenciamento de Obras e Auxiliar de Linha de Produção. A reserva pode ser realizada por e-mail (pedagogiconatal@rn.senai.br), com a indicação do interesse e da quantidade de vagas desejada.
“A aprendizagem técnica é uma porta de acesso ao mercado de trabalho, uma experiência incrível sobre conhecimento aplicado na prática, sobre oportunidades de interação aluno-indústria. De um lado a indústria aberta para desenvolver habilidades e de outro o jovem trilhando seu caminho profissional”, frisa a diretora dos Centros de Educação e Tecnologias do SENAI em Natal, Amora Vieira.
Em Mossoró, a programação de cursos a partir de maio inclui possibilidades como Assistente de Gerenciamento de Obras, Mecânico Industrial e Assistente Administrativo Industrial, a depender da demanda. A reserva de vagas pode ser feita também por e-mail (carmemlucia@rn.senai.br).
O diretor do SENAI CETIB, Emery Costa Junior, destaca que a formação é alinhada às necessidades do mercado. “Ou seja, a gente prepara jovens com habilidades práticas aplicáveis para atender as demandas da indústria. O programa permite que a empresa, contratando esses jovens, forme os profissionais desde o início da sua carreira profissional, alinhado às culturas e aos processos dentro da empresa”, diz ele.
Costa ressalta ainda a redução da escassez de profissionais no mercado de trabalho, diante da necessidade iminente de mão de obra qualificada nos diferentes segmentos industriais. “Ao trazer profissionais jovens para dentro da empresa, além de incorporá-los à cultura organizacional, o programa contribui para sanar essa escassez”.
O modelo de aprendizagem existente no Brasil, explica Rodrigo Mello, diretor do SENAI-RN, é semelhante ao chamado sistema dual da Alemanha, e começa necessariamente com a participação das empresas. “Só existe aprendizagem com uma empresa junto, com contrato de trabalho e a formação”, diz. Uma vez com contrato assinado, os jovens são encaminhados pelas contratantes para a formação profissional e passam a conciliar trabalho e estudos por meio do programa.
SAIBA MAIS – O Programa de Aprendizagem Industrial no SENAI
Veja, a seguir, como funciona, na prática, a relação empresas, aprendizes e SENAI:
1 – A empresa avalia sua necessidade de contratação de aprendizes e envia uma carta – ou e-mail – de demanda para o SENAI local informando o número de vagas que pretende abrir.
2 – Com essa demanda em mãos, o SENAI avalia os cursos e turmas possíveis para oferta e informa à empresa, para que ela possa iniciar o processo seletivo.
3 – Os aprendizes selecionados formalizam contrato com a empresa e são encaminhados para matrícula no SENAI, onde iniciam uma jornada de atividades teóricas e práticas, desenvolvem conhecimentos técnicos, habilidades socioemocionais e noções de inovação e empreendedorismo. O período de reserva de vagas que as empresas devem considerar para os cursos varia de acordo com a área.
Além da formação no SENAI, por meio do Programa o aprendiz tem a oportunidade de atuar dentro da indústria, com a orientação de um monitor e acompanhamento da equipe pedagógica do SENAI. Ou seja, ele adquire uma experiência real no mercado de trabalho e potencializa as chances de continuar empregado, enquanto a empresa ganha um banco de talentos preparado para o trabalho, sem custo e sem perda de tempo com novos processos seletivos.
Texto: Renata Moura